Marie Curie, Bertha Lutz, Nise da Silveira, Celina Turchi e Juliana Estradioto são apenas alguns nomes que revelam a presença feminina na ciência. Você sabe quem elas são? Entende por que falar delas e de tantas outras é necessário?

Hoje em dia, já estamos habituados a ouvir que “lugar de mulher é onde ela quiser”, mas nem sempre refletimos a ponto de avaliar se nossa sociedade realmente abre espaço para que as mulheres estejam onde desejam.

No post de hoje, trazemos uma reflexão sobre a presença e importância das mulheres na ciência para que você saiba porque incentivá-las e apoiá-las. Acompanhe!

O avanço das mulheres brasileiras na ciência

“O português ainda é dominado pelas meninas, e a matemática, pelos meninos. Em ciências, porém, elas tomaram um fôlego maior, e o jogo empatou”.

É assim que começa uma animadora matéria da Folha de S. Paulo baseada na edição mais recente (2018) do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Pisa.

É a primeira vez, desde 2006, que as participantes ficaram à frente de seus colegas na área da ciência. A demora para que isso acontecesse não é sem motivo, ainda há desafios a serem vencidos ― dos quais falaremos mais adiante.

O Pisa acontece trienalmente e testa os conhecimentos de estudantes de 15 anos. Em 2018, as moças marcaram 404 pontos contra 403 dos rapazes, um empate técnico, mas que pode ser comemorado como uma vitória sobre a presença das mulheres na ciência.

À Folha, Alicia Duarte Silva, de 15 anos, diz que notou o aumento da participação feminina nas competições em que participa. Alice é uma supercampeã que disputa provas nas áreas de matemática, física e ciências de um modo geral.

Outra boa notícia é que, segundo Márcia Abrahão, reitora da Universidade de Brasília (UnB) e professora do Instituto de Geociências, “o Brasil é um exemplo da emergência da produção científica e intelectual de mulheres”.

Ainda que o cenário esteja melhorando, as mulheres que buscam seu espaço na ciência ainda enfrentam a desconfiança e o preconceito cultural e institucional.

Situações que fazem com que até mesmo aquelas que já estão inseridas no meio se deparem com realidades que as distanciem de seus colegas homens.

Os desafios que mulheres enfrentam na ciência

Para começar a falar da presença feminina na ciência, recorremos a três fatos: 

  1. ciência tem contribuição inquestionável para a sociedade global;
  2. a área ainda é tradicionalmente masculina e;
  3. mulheres lutam para ocupar seu espaço, fizeram e seguem fazendo história na ciência.

Com isso, podemos começar a entender com mais clareza quais são os desafios existentes. Os três pontos apontados se traduzem no fato de que a capacidade das mulheres é questionada quando o assunto é dar uma contribuição tão valiosa à sociedade.

Acesso à educação

Historicamente, o distanciamento entre a mulher e a ciência ― ou entre a mulher e o conhecimento acadêmico ― foi imposto inclusive por meio da proibição de que elas frequentassem escolas. No Brasil, de 1500 a 1827, somente os homens tinham permissão para estudar.

Em termos históricos, a participação feminina na ciência é recente, tendo cerca de um século.

Na Polônia, Marie Curie ― uma das expoentes entre as mulheres na ciência ―, precisou estudar por conta própria e recorrer à clandestinidade, estudando na Universidade Volante, uma instituição que driblava as ordens da proibição do Ensino Superior para mulheres.

Foi assim, na marra e na coragem que Marie Curie articulou sua ida à Paris, onde passou a integrar grupos de pesquisa científica avançada. Como consequência, ela foi a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel nas áreas de Física (1903) e Química (1911) e também a primeira a receber a dupla premiação.

Atualmente, ainda que mulheres tenham acesso à educação, as oportunidades são diferentes. Vale lembrar, por exemplo, que elas são maioria com Ensino Superior, mas ainda ganham menos.

Seguindo as comparações, mulheres negras são as que mais sofrem ― entre brancas e homens brancos e negros ― com o desemprego e a falta de oportunidades.

Reconhecimento no meio

Tudo aquilo o que rompe um privilégio causa desconforto, ainda que não devesse. Marie Curie foi pioneira no ramo da radioatividade e ganhou um total de cinco prêmios Nobel.

Mesmo com feitos assim ― uma lista que inclui conquistas dela e de outras mulheres na ciência ―, o que se sabe é que “acadêmicos de todo o mundo admitem que as contribuições das mulheres nessas áreas não foram reconhecidas”.

Como consequência, a história da presença feminina na ciência não é tão difundida. Um problema que precisa ser revertido, sobretudo nas escolas, ambiente em que estudantes têm contato com diferentes possibilidades para seu futuro profissional.

“Gostaria muito de ter conhecido mulheres cientistas, ter lido mulheres negras. Elas existem, mas não chegam nas mãos das meninas. Quando você entra na graduação, não se vê, não se reconhece. Temos um currículo que exalta a experiência de homens brancos, que ainda são os sujeitos universitários”.

A fala é de Anita Canavarro, professora de Química da Universidade Federal de Goiás e de História Afro-Brasileira, em entrevista ao portal da Academia Brasileira de Ciências.

Discriminação e iniquidade

Como mencionado, existe um preconceito institucional e cultural. Você certamente já ouviu ou conhece alguém que ouviu dizerem por aí que “meninos são melhores em matemática do que meninas” ou algo do tipo.

Existem diferentes teorias a esse respeito, mas a questão que trazemos aqui é de que essa ideia pode sim afastar mulheres das ciências. O depoimento da brasileira Letícia Oliveira ao Jornal O Globo nos dá uma ideia sobre situação:

“Eu era praticamente a única menina da turma que gostava de matemática. Mas, na hora de escolher a universidade, não quis ser a ‘ovelha negra’ e temi não estar tão preparada como meus colegas homens”. Ela acabou estudando Literatura.

Ainda, de acordo com Márcia Abrahão, da UnB, esse distanciamento quase que induzido ainda nos leva à “baixa presença de mulheres em cargos de gestão acadêmica. Das 68 universidades públicas federais, apenas 19 (28%) têm reitoras”.

A reitora completa dizendo que parte do problema está relacionado aos “papéis sociais de gênero e à falta de regulamentação para situações específicas, como a licença-maternidade”. O que acontece é que até instituições que financiam a ciência até prevêem a prorrogação das bolsas, mas as mulheres ainda saem perdendo.

Isso acontece porque o volume de artigos publicados conta no processo seletivo de várias bolsas e editais no campo das ciências. O papel social pré-estabelecido leva as mães a ficarem mais tempo afastadas de suas atividades profissionais do que os pais.

Como consequência, elas ficam em desvantagem.

Cientistas do passado e do presente

A reflexão sobre a presença das mulheres na ciência poderia se prolongar por que há ainda outros vários pontos que podem ser levantados.

Porém, este post faz parte de uma série publicada no mês de março, quando comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Por essa razão, queremos dosar o convite à reflexão com fontes de inspiração para quem quer ampliar o espaço das mulheres na ciência.

Citamos Marie Curie repetidas vezes e, por sua notoriedade, é provável que você já a conheça. Mas, e as outras mulheres que mencionamos ainda na introdução deste post? Todas são brasileiras e vamos falar brevemente de cada uma:

Bertha Lutz (1894-1976)

Filha do cientista Adolfo Lutz, Bertha foi uma das maiores biólogas brasileiras, tendo se especializado no estudo de anfíbios. Foi também pesquisadora do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Além do gosto pela ciência, Bertha Lutz era ativista feminista e se destacou na luta pelo direito ao voto das mulheres brasileiras. Ela também é conhecida como uma das maiores líderes na luta por direitos políticos das mulheres em nosso país.

Nise da Silveira (1905-1999)

Nise da Silveira foi uma médica psiquiátrica que desenvolveu trabalho pioneiro sobre doença mental através da arteterapia, pelo qual ganhou reconhecimento internacional.

Além disso, Nise dedicou a vida a lutar contra tratamentos psiquiátricos agressivos como os choques, o confinamento e a lobotomia.

Celina Turchi (1952-*)

Celina Turchi é médica e um dos destaques brasileiros entre as mulheres na ciência nos dias de hoje. Especialista em epidemiologia das doenças infecciosas, é ela a responsável pela descoberta entre a relação do Zika Vírus e a microcefalia.

Em 2017, Celina foi eleita pela revista Time como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo!

Juliana Estradioto (2001 -*)

Para fechar a lista, temos a jovem cientista de escola pública que foi mais longe do que qualquer brasileiro na ciência. Aos 19 anos, Juliana Estradioto virou nome de asteróide depois de ganhar o primeiro lugar em uma feira internacional.

Atenta a um problema atual, Juliana desenvolveu um plástico a partir da casca do maracujá e criou uma membrana, a partir da noz de macadâmia, para substituir materiais sintéticos. Com isso, ela já soma mais de 40 distinções como jovem cientista.

Para se tornar uma mulher na ciência, a jovem recebeu o incentivo de uma professora, Flávia Twardowski, e o apoio da mãe sempre. E é com um recado da “asteróide Juliana”que encerramos este post: “Devemos nos inspirar nas mulheres que estão à nossa volta, como amigas e professoras, não somente em nomes poderosos e conhecidos”.

Ainda há várias outras mulheres cientistas que merecem ser conhecidas, assim como nomes não famosos que podem nos inspirar. Quer destacar alguém? Compartilhe conosco nos comentários!